Os Conquistadores - Os peixes não nativos que conquistaram o mercado brasileiro

Você sabia que muitos dos peixes que estão dominando as prateleiras dos mercados e peixarias são originários de outros países?

Alguns já são cultivados no Brasil, outros são importados. Apesar de gerar muita discussão sobre qualidade, origem e sustentabilidade, essas espécies vêm cumprindo um papel indiscutível: a democratização do pescado na mesa do brasileiro.

Alguns quesitos — como praticidade no preparo, sabor suave, carne branca e previsibilidade no fornecimento — são pontos que 'Os Conquistadores' cumprem com excelência. Vamos lá!

O consumo de peixe no Brasil ainda é baixo se comparado à média mundial, mas vem crescendo, mesmo que timidamente, nos últimos anos. E boa parte desse crescimento vem de espécies que não são daqui, como o Salmão e a Tilápia. Além desses dois, mais conhecidos, outros nomes que você também já viu por aí têm ajudado o peixe a ganhar espaço na mesa do brasileiro com mais frequência. Vamos conhecer as principais espécies não nativas que conquistaram esse espaço.

Apesar da falta de dados consolidados, o consumo de pescado no Brasil vem em alta: segundo IBGE e Peixe BR, passou de 10,19 kg per capita/ano em 2020 para 10,5 kg em 2024. Já circulam notícias, ainda sem fonte confirmada, apontando consumo de até 12 kg per capita.

 


1. Tilápia do Nilo

Nome científico: Oreochromis niloticus
Origem comercial: África (espécie) — produção nacional (Brasil)

Ficha técnica

  • Origem: Cultivo

  • Sustentabilidade: cultivo controlado, baixo impacto sobre estoques selvagens quando bem manejado — não é espécie de pesca extrativa

  • Carne: Branca

  • Espinhas: Corte 1/10 · Posta ou inteira 2/10

O Brasil é o 4º maior produtor de tilápia do mundo. De acordo com a Peixe BR, a espécie representa 70% de todo o peixe criado no país, com o Paraná liderando o ranking nacional com folga. A tilápia-do-nilo se destaca pela carne branca, magra e suave, sem odor intenso — características que resultam em cortes praticamente sem espinhas. Existe ainda uma variação genética, a Tilápia Vermelha, também conhecida como Saint Peter.

 


2. Merluza

Nome científico: Merluccius hubbsi
Origem comercial: Argentina

Ficha técnica

  • Origem: Selvagem

  • Sustentabilidade: pescaria manejada e monitorada pelo INIDEP (cotas, áreas de proteção de juvenis), porém sem certificação MSC como atributo geral da espécie

  • Carne: Branca

  • Espinhas: 3/10

A merluza é um peixe de corpo alongado, cabeça relativamente grande e boca provida de dentes bem desenvolvidos. Apesar de estar presente no extremo sul do litoral brasileiro, é a Argentina quem responde pela maior parte da merluza disponível comercialmente no país. É um predador marinho, com corpo de sabor suave e textura delicada — características que explicam sua ampla aceitação, mas que também exigem cuidado na conservação: manipulação excessiva ou sucessivos ciclos de congelamento podem prejudicar a textura e aumentar a perda de água durante o preparo.

 


3. A Genuína Polaca do Alasca

Nome científico: Gadus chalcogrammus (sinônimo: Theragra chalcogramma)
Origem comercial: Estados Unidos (Alasca)

Ficha técnica

  • Origem: Selvagem

  • Sustentabilidade: pesca certificada (MSC + GSSI), bycatch inferior a 1%, gestão prevista na própria legislação do Alasca — a maior pescaria certificada como sustentável do mundo

  • Carne: Branca

  • Espinhas: 1/10

  • Nutricional (100g): 82 kcal · 20g proteína · 331mg ômega-3 · 0,4mg ferro

A Genuína Polaca do Alasca é uma das espécies mais versáteis entre os peixes brancos: carne clara, textura firme e sabor suave, com aplicações que vão de receitas do dia a dia a food service e indústria. Mas nem toda polaca vendida no Brasil é igual — hoje o produto chega ao país por dois caminhos diferentes, vendidos sob o mesmo nome popular:


Genuína Polaca do Alasca

Polaca "da China"

Corte

"J" — só partes nobres

"V" — inclui partes de menor qualidade, como a barriga

Congelamento

Único, logo após o processamento, ainda no Alasca

Duplo: uma vez na origem, outra no reprocessamento, na China

Conservação

Sem aditivos nem tratamentos químicos

Pode conter aditivos e tratamentos químicos

Textura

Firme e uniforme

Quebradiça

Cor

Branco pérola

Branco translúcido

Origem

Estados Unidos (Alasca)

Pescada em diferentes países, processada na China


A Genuína Polaca do Alasca carrega dupla certificação internacional (MSC e um selo reconhecido pela GSSI), bycatch abaixo de 1%, cotas definidas anualmente por cientistas independentes em parceria com a NOAA e o North Pacific Fishery Management Council — nunca ultrapassadas — e responde por cerca de 43% de todo o volume de pescado selvagem capturado nos EUA. O Alasca também proíbe constitucionalmente a piscicultura em cativeiro no estado.

Nos EUA, a própria indústria (GAPP) já pediu à FDA um ajuste no nome comercial, já que 80% dos consumidores associam a palavra "Alasca" no rótulo à origem real do peixe — o que nem sempre é verdade. Buscar o selo "Genuína Polaca do Alasca" é hoje o jeito mais confiável de garantir a origem certificada e o congelamento único.

Procure sempre por produtos de origem do Alasca.

 


4. Salmão do Atlântico

Nome científico: Salmo salar
Origem comercial: Chile

Ficha técnica

  • Origem: Cultivo (mais de 95%) e pesca comercial

  • Sustentabilidade: planos de modernização como o Plan Salmón 2050, aproximando os padrões chilenos das exigências internacionais

  • Carne: Salmonada

  • Espinhas: Corte 1/10 · Posta ou peixe inteiro 4/10 (lombo costuma reter espinhas finas)

O salmão consumido no Brasil vem majoritariamente do Chile, hoje o principal fornecedor, à frente até da Noruega — maior produtor mundial — por logística e competitividade. Assim como a tilápia, o salmão-do-atlântico não é nativo do Chile: foi introduzido nas décadas de 1970-80 para dar início à indústria de cultivo local. A coloração salmonada vem da astaxantina, fornecida na dieta (aditivo de uso autorizado por todas as agências regulatórias do mundo). Além do valor nutricional, o salmão cumpre função estratégica no mercado: funciona como porta de entrada para o consumo de proteína aquática, facilitando a aceitação entre quem ainda tem pouco hábito de comer peixe.

 


 

5. Abadejo / Congrio-Rosa

Nome científico: Genypterus blacodes
Origem comercial: Chile e Argentina

Ficha técnica

  • Origem: Selvagem

  • Sustentabilidade: pesca sob sistema de cotas, sem certificação internacional (MSC) até o momento

  • Carne: Branca

  • Espinhas: 1/10

O abadejo é um dos nomes mais populares em peixarias e restaurantes brasileiros — e também um dos mais mal-entendidos. Na prática, quando o consumidor compra abadejo, especialmente em corte congelado importado da Argentina, a referência é o Genypterus blacodes, de carne branca, macia e baixo rendimento de corte. Existe um "parente" brasileiro, o Genypterus brasiliensis, mas de relevância comercial baixíssima. Importante: abadejo e badejo não são sinônimos — o badejo brasileiro pertence ao gênero Mycteroperca, espécie bem mais nobre e de maior valor comercial. Nomes parecidos, produtos diferentes.

 


6. Panga

Nome científico: Pangasianodon hypophthalmus
Origem comercial: Vietnã

Ficha técnica

  • Origem: Cultivo (aquicultura)

  • Sustentabilidade: não abordada como atributo central da espécie — diferencial é o preço acessível

  • Carne: Branca a levemente rosada

  • Espinhas: 1/10 quando em corte

O panga é um peixe de água doce originário do Sudeste Asiático, da mesma ordem dos bagres e de vários peixes de couro brasileiros. No mercado nacional, panga importado significa predominantemente aquicultura vietnamita. Existem diferenças expressivas de qualidade entre produtos vendidos como panga — de cortes espessos e bem processados a produtos mais baratos e de textura inferior. O grande papel estratégico do panga é democratizar o acesso ao pescado: preço competitivo, sabor neutro e ausência de espinhas permitem que a proteína aquática alcance consumidores que dificilmente pagariam por pescados de maior valor.

 


7. Truta Arco-íris

Nome científico: Oncorhynchus mykiss
Origem comercial: Produção nacional (regiões serranas do Sudeste)

Ficha técnica

  • Origem: Cultivo (aquicultura de nicho)

  • Sustentabilidade: produção associada a águas frias, limpas e bem oxigenadas — sistemas de recirculação em expansão

  • Carne: Clara, podendo apresentar tonalidades rosadas

  • Espinhas: 3/10 — especialmente baixa em corte

A truta-arco-íris pertence à mesma família do salmão, mas é espécie diferente. Originária da América do Norte, foi introduzida no Brasil em 1949, na Serra da Bocaina, encontrando condições ideais nas regiões serranas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Diferente da tilápia — produção em grande escala e ampla distribuição — a truta representa uma aquicultura de nicho, de menor volume, fortemente associada à gastronomia e ao turismo rural. Assim como o salmão, pode receber astaxantina na dieta, resultando na clássica "truta salmonada".

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